Não posso dizer

Não posso dizer

que quero beijar sua boca

que sinto esse desejo enorme

de te envolver com meus braços

que por não sei qual razão

me ocupa sempre o pensamento

não posso dizer

exatamente o que sinto

pois tudo é tão novo

é tão misterioso

não tenho provas

nem certezas

apenas delicadezas

te vejo assim

perto de mim

seus olhos castanhos

seus cabelos escuros

o jeito doce de olhar

não posso dizer

que é possível

que é um sonho

ou provável realidade

mas sei aqui dentro

no mais protegido canto

que é puro encanto

imagino cada gesto

o perfume

o hálito

o sorriso farto

não posso dizer nada

que não seja poesia

minha verdade

nestas palavras

ao vento vão

e longe chegarão

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(58) Deixei de fumar

Entretanto, um pouco

Deixei de fumar

mas continuo tragando

a vida e sua escuridão

esfumaçada em dúvidas

e dívidas perenes

deixei de fumar

liberei os pulmões

para poder respirar

e suspirar os amores

que venero

deixei de fumar

(des)acalmou o cérebro

a nicotina sai

entra a ansiedade

pelo teu olhar noturno

deixei de fumar

e agora corro

muito mais

atrás

do que quero

deixei de fumar

mas nunca de amar

sem filtro

amo como a brasa

que desperdiçava

no cinzeiro a apagar

calor que espero

pois trago

ainda trago

aqui no peito

o sentimento

que te quero

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(57) Canção para dormir

Entretanto, um pouco

deitado de costas

cigarro aceso na mão

encerro as apostas

sozinho no colchão

lençóis macios brancos

lugar vazio e solidão

sem soluços ou solavancos

relembro com emoção

cada momento vivido

nesta cama, neste coração

nada foi perdido

valeu todo o tesão

agora é dormir de verdade

tentar esquecer a ilusão

não há mais intimidade

restou só compaixão

fechar os olhos e sonhar

buscar compreensão

se vier me visitar

me dê a sua mão

mas não peça pra ficar

não quero mais sofreguidão

só fantasias pra lembrar

nossa linda paixão

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(114) Pulsar

Pulsa, ainda pulsa, ainda pulsa

nada importa, não há razão

bate-estaca, bate forte impulsão

pulsa, pulsa, pulsa

purga nas veias

inteiras, sem meias

palavras

palavras

a dor da extorsão

da corrupção

da traição

do purpúreo coração

sente a carne, o cerne

a mente que não discerne

o real da paixão

pulsar emoção

provocação

tentação

segue desguiado

sem vista, sem mar

segue iluminado

pela ilusão a lhe enganar

ela é rocha, seca, dura, eterna

ele é abrigo, castigo, caverna

pulsam as ondas e marés

nada mais é o que é

só a maresia, o enjoar

a náusea e o navegar

todas as cores

dos amores

que ela fez por estar

que ele sentiu desperdiçar

(55) Prelúdio

Entretanto, um pouco

enquanto aguardo

sinto a carne que se contorce

o âmago que sofre

a bala na agulha

martírio humano

esses malditos ponteiros

lentos, moribundos

o sol que nasce e se põe

o corpo respira

a alma derrama lágrimas

mas não há nada

a se fazer

apenas esperar

prelúdio longo

entre o nada

e o tudo

vácuo silencioso

onde não há escolha

você tem que resistir

se superar

manter a cabeça sobre os ombros

e lentamente caminhar

por entre os muros

e pedras

não há flores no escuro

nem perfumes

só o vazio

que separa

a vida

e a morte

paixão significa

sofrimento

e derramo litros de sangue

corto as veias

arranco os cabelos

soco as paredes

toda uma literatura

de terror

de capa a capa

palavras sombrias

o prelúdio

em que vivem os que amam

até que o céu

se abra

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