(80) Vem cá

Entretanto, um pouco

vem cá

se enrosca

me enrola em tua volta

abraça e se perde

não saia mais

chega de partir

vem cá

beija e se apaixona

me entorpece nos teus lábios

trança as pernas

os braços

as línguas

vem cá

puxa minha barba

segura meus cabelos

senta na minha cara

me mostre tuas transas

tuas tranças

vem cá

desembaraçada

atirada, perversa

aperta o nó que nos une

o gozo que nos pune

o amor de nós dois

vem cá

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(79) Bocas

Entretanto, um pouco

Bocas

nossas bocas

loucas

nossas loucas paixões

bocas que se atiram

bocas que se perdem

bocas que se encontram

nossas bocas

loucas

que línguas falam nossas bocas

que línguas cruzam nossas bocas

nossas bocas

loucas

na saliva mora o veneno

homeopático soro do amor

de dose em dose flores

mordidas, sabores

de dose em dose

nossas bocas

loucas

se amam um pouco mais

o que fazemos com nossas bocas

loucuras, pecados, delícias

ah

nossas bocas

loucas

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(78) A dor que se sente

Entretanto, um pouco

Dor que se sente
é dor sem cura
aquela que chega
quando não se espera
Dor que se sente
e não se procura
ela te pega
e espreme
Dor que se sente
é aquela que pensamos
vencida
mas volta cruel
enrijecida
Dor que se sente
é quando sabemos
que não é justa
tá fora de medida
e não te pertence
Dor que se sente
é quando falta chão
até corrimão
é só um tombo sem fim
uma luz que se acaba
e só sobra o nada.

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(76) A Chuva

Entretanto, um pouco

a janela molhada
protege da água
o barulho dos pneus
dá sono

é a morte de uma estrada
desacompanhada

sem ter um pensamento
viaja norte sul
sul e norte

a chuva cai fria
desavisada

sem ter um nome
não imagina o tempo
nem a distância

é só o céu eterno
que passa cinzento

chove lá fora
e nada no peito
sozinho um mundo
vai escurecendo

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