Hoje

Não vou arrumar a cama

deitar em uma poça de lama

ficar com a mesma roupa

café amargo e suco de polpa

não ligar a tevê nem o rádio

fitar o vazio do estádio

um cigarro aceso na boca

uma febre muito louca

nada de conversas

pensamento em terras imersas

um dia cinza mesmo com céu azul

ranzinza os olhos miram o sul

de lá vem todo o silêncio

sofre como o pobre Gaudêncio

hoje será tristeza por fora e por dentro

poesia pontuada e com acento.

Insone

Muitas vezes me recuso a dormir

simplesmente porque gosto de me ver

de me sentir vivo, respirando, pensando

um gerúndio moto-contínuo

Muitas vezes me recuso a sonhar

simplesmente porque gosto de me ter

de me sentir com os pés no chão, remanchão, marachão

um amor descontínuo

Criatura

Naquela mesa escura de granito

ele vivia sozinho rabiscando suas letras

tinha delírios animalescos, insanos, sujos

sempre fora um pervertido lunático

Naquela mesma mesa fria de granito

com sua ideias sempre canhestras

vivia a procura, tal uma matilha de sabujos

sempre com seu perfeito ímpeto pragmático

Farejava insatisfeito a vagar pelo mundo

praias, trilhas, matas, acampamentos

até que naquela noite veio a criatura

ela era ele, vestida de saias e cabelos

Pertencia então àquele mesmo submundo

noites, líquidos, gozos, excitamentos

vivia sob a exata mesma temperatura

ele era ela, vestido de membro e pelos

Torresmo

Ando cansado de correr

do lugar em que nasci

e dali um dia fui, parti

tem sido só um querer

Essa eterna e longa ausência

procura que deveria expirar

um dia em sua essência

parar por fim de respirar

Tanto se diz do encontro

lá fundo bem dentro

entre tu e você mesmo

gordura e pele do torresmo

Mas todos sabemos enfim

como Platão já bem afirmou

o amor é idealizado contou

a busca nunca tem um fim

 

Que será será

escondido atrás de um copo de uísque

tamborilava os dedos nervosamente

‘que será será what will be will be’

tentava resolver aquelas dúvidas

sufocar a ansiedade que o cercava

(mais um dia normal na vida dele)

 

não há nada mais sincero que o velho uísque

o malte carrega a tinta que alivia as nossas dores

(ou apenas uma aceitável desculpa entre os bêbados)

 

que será será

depois que o gelo derreter

que o cigarro acabar

what will be will be

Zumzum

Tem um zumzum

aqui no peito que não me deixa

não é assim uma dor nem uma queixa

é só esse maldito zum zum zum zum zum

um ruído estranho, surdo, mas não é novo

ele vem de vez em quando, quando ele vem

é tipo moeda velha cruzeiro, cruzado, vintém

vale mais nada, mas tá sempre vindo aqui, de novo

enquanto respiro, penso e solto um suspiro longo e fundo

os olhos então marejam, embaça a visão dos olhos já cansados

é uma leseira sem idade, coisa típica dos poetas descompromissados

o verso vai crescendo, saindo sem muito conteúdo nada muito profundo

só um zumzum

mais um