(64) Ausência

Entretanto, um pouco

A ausência

me enche e transborda

Com as ondas

me afasto

até encontrar

outro momento

A terra parece redonda

e os oceanos se encontram

Quem sabe

ainda volto

Ver o post original

Anúncios

(62) Queria ser Drummond

Entretanto, um pouco

Queria ser Drummond

para saber das palavras contar nossa história

em poesia ou prosa várias ventanias

sacudir teus cabelos e refrescar teu sorriso

mostrar apego, mas sem correntes

só massagem e química de pele e suor

um poeta certeiro, doce suave sem enjoo

sabor de bebidas e também tabaco

traduzir a força do dragão que me carrega

pelos céus deste mundão quando a tenho

o fogo todo que incendeia a alma, a vila

e a vida

trazer nos léxicos o conteúdo deste prazer

inexplicável do orgasmo que vivemos juntos

deleitar o corpo com passagens firmes

mãos ágeis e precisas, línguas safadas

ah os olhares na penumbra da noite fria

que contrastam com a pele quente friccionada

sob as tatuagens e os pelos carne incandescente

da conjunção entre o rebelar e o sucumbir

talvez me negue as possibilidades de um jornal

fuja sim do cotidiano nefasto da era de aquários

mas me morda a carne…

Ver o post original 52 mais palavras

(60) São Paulo

Entretanto, um pouco

Ah metrópole agoniada
grita, buzina e ferve em panelaço!
Ruas que invadidas revelam
todos os abandonados

Ah pauliceia desvairada
sujeira, poeira e fumaça!
No crack e na cachaça amarelam
todos os acovardados

Ah locomotiva descarrilada
revolta tua gente e tua praça!
Retira daqueles que só exploram
todos os niqueis roubados

Ah São Paulo deslumbrada
inunda tua pátria e tua farsa!
Expele a verdade dos que namoram
todos os capitais surrupiados

Ah selva de pedra perfumada
acolhe teu povo em teu regaço!
Volta a garoa dos que acreditam
que por ti foram sim adotados

Ver o post original

(59) Solidão de pescador

Entretanto, um pouco

balança no mar
abandonada jangada
sal na pele cansada
sem forças para sonhar
sem sereia nem baleia
só o sol e marola
uma tarde que se demora
uma vida que não incendeia
páginas de suor e silêncio
a vela quebrada
a saudade marejada
a falta do intenso
não há direção ou leme
leva solto pro horizonte
pra onde a proa aponte
se apequena e não teme
homem e nave que vão
os riscos e os medos
não cheiram segredos
boiando com a solidão

Ver o post original

Não posso dizer

Não posso dizer

que quero beijar sua boca

que sinto esse desejo enorme

de te envolver com meus braços

que por não sei qual razão

me ocupa sempre o pensamento

não posso dizer

exatamente o que sinto

pois tudo é tão novo

é tão misterioso

não tenho provas

nem certezas

apenas delicadezas

te vejo assim

perto de mim

seus olhos castanhos

seus cabelos escuros

o jeito doce de olhar

não posso dizer

que é possível

que é um sonho

ou provável realidade

mas sei aqui dentro

no mais protegido canto

que é puro encanto

imagino cada gesto

o perfume

o hálito

o sorriso farto

não posso dizer nada

que não seja poesia

minha verdade

nestas palavras

ao vento vão

e longe chegarão