Faca afiada

Não existe faca mais afiada

que o silêncio.

Corta na chegada

e na saída.

Cerâmica branca,

mortal.

O silêncio tem a força do bem e do mal.

Oeste

Tanto admirava o sol

que ao despertar abria as janelas

mirava a luz quente

nascer devagar

o céu rosado

as nuvens refletindo cores

hipnotizantes

se embriagava nas manhãs

de todos os dias

cansado adormecia

até que em um dia

daqueles mais nublados

raros

não percebeu mais o clarear

e estendeu o sono

a pestanejar

súbito depois de tal fenômeno

raro como já afirmado

estava acordado

e um torcicolo inesperado

lhe apresentou o oeste

esteve sempre lá

mas não era notado

já eram tantas horas

e avermelhado

testemunhou pela primeira vez

o sol deitar-se

encantado e surpreso

encontrou beleza

e verdadeiro prazer

não estava tão quente

era confortável ao olhar

ao invés do brilho a cegar

um manso céu

crepúsculo vespertino

convite para a noite amar

Pescadores

Almas desnudas,

corações selvagens,

horas marcadas,

sem rotas de fuga.

Noturnos

controlados pecadores,

pescadores a margem da lua

Pervertidos ambulantes,

engolidores de sorrisos

que pagam com carne quente.

Inúteis para muitos,

conforto certo para outros,

errantes na madrugada

deixam as rochas pisadas

e os lábios vermelhos

de quem ousa recebê-los.