(72) É preciso

Entretanto, um pouco

Viajar é preciso

navegar não é preciso

não preciso sair

tão pouco ficar aqui

me guia o acaso

ou o destino dos mares

qual a minha direção

desconheço

mas

se encontro porto e paixão

me atraco

e os oceanos irão

re(velar)

a(mar)

é preciso

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(71) Navalha na carne

Entretanto, um pouco

me esfacela fundo
em dores me afundo
sempre que ouço tua palavra amarga

surpreende tua insistência
essa ignorância e ciência
sempre senhor de uma razão magra

porque gritas contra os pequenos?
porque agrides os que tem menos?

como navalha na carne
destrói lentamente a esperança
cada vez que teu discurso alcança
ouvidos ingênuos desavisados

como navalha na carne
maltratas um povo oprimido
cala cada ser esquecido
pobres abandonados

maldito opressor
renomado senhor
abusas da sorte
com fio e corte

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Ela e ele

I

Quando ela se foi

fez-se silêncio

escuridão

não havia o que dizer

(hiato)

ele saiu

depois do tempo

em desesperada busca

encontrou jasmins

viu sonhos

acreditou e lutou por uma história

mas não teve

não houve

(tato)

Ela e ele

não mais existe

não se constrói

não se inventa

não se sonha

II

Ele então foi mais longe

viajou para o interior

o mais profundo lugar

dentro de si

e lá ele a encontrou novamente

cerâmica, faiança

e porcelana

obra-prima

estão juntos desde então

ela e ele

ela é o amor

que só em si persiste

que só em si existe

que só em si significa

o amor nunca está no outro

nem no que veio

nem no que partiu

nem no que ficou

o amor é porcelana

impermeável, de massa fina

delicada criação

que possuímos latente

a ser desperta

a ser vivida

só depende de si

(70) Etílico

Entretanto, um pouco

Borrachudo se encontrou

molhado de maltes e lágrimas

sentia a pele queimar de medo

do que podia partir ou se perder

etílico caminho violento

percorreu na lua nova

pela fria noite inteira

sonhou, gritou, abraçou

o calabouço que ele mesmo

criou

ébrio velhaco de rugas e pelos

quanta idade tens entre os dedos

que seguram o copo cheio

de dores e passado

trêmulo, sôfrego, pasmo

homem de histórias

derrotas e parcas vitórias

deitou a sede de sabores

derreteu o gelo a sua volta

e sentiu as pernas fraquejarem

tudo para poder lutar

pela liberdade que lhe é

tão cara

fim da garrafa

beco sem saída

durma agora se quiser

ou enfrente a aurora

que não tarda a chegar

pra lhe oferecer mais uma

chance

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(69) Onze horas

Entretanto, um pouco

o relógio é uma réplica
mas tem esse jeitão do passado
sem ponteiro de segundos
traços fortes
moldura cor de madeira velha
um rachado colado
que lhe permite um ar histórico
os ponteiros rebuscados
move-se quase imperceptível
contando o tempo
é falso brilhante
movido a pilha
não faz tic-tac
mas todas as noites
sobre minha cabeça
às costas
vai registrando
minha respiração
os suspiros
a fumaça dos cigarros
calado
ouve Nat King Cole
Miles Davis
Billie Holiday
não demonstra sentimento
segue impávido
não teme o futuro
não chora
auréola do espírito
que me toma
todas as noites
em que te espero

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Mergulhar

Mesmo se você não souber amar

as ondas irão continuar a quebrar

na orla do mar posam as andorinhas

que sabem como voar

e você quando irá chorar?

o medo da correnteza [de se deixar levar]

o que te assusta desde quando era uma menininha

ouça os ruídos do mar

sinta a magia do oceano sob o luar

só você pode mudar

uma escolha

ficar ou seguir em frente

mesmo de você não souber amar

[mergulhar]