(65) Noites em claro

Entretanto, um pouco

são nestas noites em claro
que a pena mais se consome
é um ímpeto insano e tosco
pensamentos impuros e ocos
palavras, vômitos, soluços
energia insólita mas vital
despejo no papel verdades
e mentiras, fantasias nuas
sonhos antigos, rimas cruéis
são nestas noites em claro
que o improvável se forma

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(62) Queria ser Drummond

Entretanto, um pouco

Queria ser Drummond

para saber das palavras contar nossa história

em poesia ou prosa várias ventanias

sacudir teus cabelos e refrescar teu sorriso

mostrar apego, mas sem correntes

só massagem e química de pele e suor

um poeta certeiro, doce suave sem enjoo

sabor de bebidas e também tabaco

traduzir a força do dragão que me carrega

pelos céus deste mundão quando a tenho

o fogo todo que incendeia a alma, a vila

e a vida

trazer nos léxicos o conteúdo deste prazer

inexplicável do orgasmo que vivemos juntos

deleitar o corpo com passagens firmes

mãos ágeis e precisas, línguas safadas

ah os olhares na penumbra da noite fria

que contrastam com a pele quente friccionada

sob as tatuagens e os pelos carne incandescente

da conjunção entre o rebelar e o sucumbir

talvez me negue as possibilidades de um jornal

fuja sim do cotidiano nefasto da era de aquários

mas me morda a carne…

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(60) São Paulo

Entretanto, um pouco

Ah metrópole agoniada
grita, buzina e ferve em panelaço!
Ruas que invadidas revelam
todos os abandonados

Ah pauliceia desvairada
sujeira, poeira e fumaça!
No crack e na cachaça amarelam
todos os acovardados

Ah locomotiva descarrilada
revolta tua gente e tua praça!
Retira daqueles que só exploram
todos os niqueis roubados

Ah São Paulo deslumbrada
inunda tua pátria e tua farsa!
Expele a verdade dos que namoram
todos os capitais surrupiados

Ah selva de pedra perfumada
acolhe teu povo em teu regaço!
Volta a garoa dos que acreditam
que por ti foram sim adotados

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(59) Solidão de pescador

Entretanto, um pouco

balança no mar
abandonada jangada
sal na pele cansada
sem forças para sonhar
sem sereia nem baleia
só o sol e marola
uma tarde que se demora
uma vida que não incendeia
páginas de suor e silêncio
a vela quebrada
a saudade marejada
a falta do intenso
não há direção ou leme
leva solto pro horizonte
pra onde a proa aponte
se apequena e não teme
homem e nave que vão
os riscos e os medos
não cheiram segredos
boiando com a solidão

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