Frio de Inverno

nesse frio de tremer os ossos

sob a proteção dos fios de algodão

e outros sintéticos

(na vida nada é puro)

me apego a memória

em busca de algum calor

sei que já não posso

ter a quem me aquecia

(bendito inverno tão duro

com as almas solitárias)

restam muitas lembranças

fotografias e as músicas

(que ouço calado)

aqui na penumbra da sala vazia

abraço minha saudade

e beijo tua boca em sonhos

faz muito frio sem você

mas saiba que ainda vivo

 

 

Cicatrizes

Aqui sofro devagar

apago a vida aos pedaços

um pouco de você por vez

para não doer assim demais

a borracha passa

mas ficam algumas marcas

cicatrizes incuráveis

Um longo relembrar

nos textos teus beijos, teus abraços

nas fotos tua tez

nos sonhos nossa paz

a borracha passa

mas ficam algumas marcas

cicatrizes incuráveis

Ágape

Não sabia ele o que aconteceria

mas de repente tudo que sabia

era que seu amor era incondicional

imensurável quase surreal

Tudo no mesmo pote dourado

carinho, respeito, apaixonado

fraterno, amigo, amante

nunca antes tão relevante

Se perdeu por esse mundo

mergulhou ainda mais fundo

nada mais queria ou existia

só desejava sua companhia

Mas até o mais puro amor

pode ser cruel e cheio de dor

acreditava que ela por fim viria

mas quis o destino que desistiria

Ágape divina, banquete de sacrifícios

construiu jardins, pontes e altos edifícios

mas com seus desejos morreu em pensamentos

o amante solitário hoje guarda apenas momentos

 

 

Afogada

sob a linha d’água estava chorando

ofereci meus braços e salvação

não podia te garantir seus sonhos

mas só uma outra opção

o mar se agitou nervoso

era pegar ou largar

teve tanto medo de se afogar

que pro fundo foi em silêncio

não teve coragem de acreditar

nem forças para lutar

misturou as lágrimas

com a água do mar

e no escuro permaneceu

uma tristeza sem fim

ver tão linda vida

adormecer

afogada pelo medo

de viver

Fênice

foi assim que aconteceu

aquela intensidade toda

foi morrendo vagarosa

o silêncio se apoderou

a quietude cresceu

e não se falavam mais

 

tudo porém tinha propósito

o desapego das amarras

era preciso ser assim

alcançar um fim

 

o tempo passou lento

e os pássaros voltaram

o céu voltou a ficar azul

a primavera floriu

 

com o desabrochar

de uma nova estação

a saudade, o sentimento

renasceram, se reencontraram

 

hoje é tudo presente

se vive o dia que tem

o passado foi esquecido

e só importa ser feliz

 

O sonho acabou?

O sonho acabou?

Não seremos felizes?

O amor não existe?

Não há mais utopia?

Deus não existe?

O que resta quando não há respostas?

O que sonhar quando não se pode dormir, o que viver quando ao invés de ser só queremos ter, o que fazer quando o trabalho é árduo e não há tempo nem disposição para o prazer?

Seremos felizes?

O sonho acabou?