Recife

sou um poeta pequeno

talvez por isso enxergue tão bem o chão

mas o céu aqui é próximo

alcanço com a mão

acaricio a lua

beijo estrelas

sem medo de trovão

sua extensão é medida

pela sua fé

se sente medo só percebe

as verdades represadas pelo recife

se sente coragem e crê

vai além

o medo do novo

te afasta do seu povo

o galo da madrugada canta

sempre é hora

hora de acreditar

 

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Músculos

Me falam que o coração

esse órgão tão cantado

em todos os poemas e orações

é apenas um músculo

uma máquina que bomba

quente de esforço

fria de emoções

Quem se importa?

Meus músculos tesos ou flácidos

são reféns dos sentimentos

entre a cadeia de nervos

que percorrem dos pés à cabeça

com sua eletricidade e química

todos esses códigos complexos

vive sim

a poesia

e pouco me interessa

sua heresia ao negar

que um músculo seja capaz de amar

fico com a fantasia

Noite escura

É no silêncio da noite escura

que mais penso em você

no baixo contraste das sombras

que sozinho te desenho

nas paredes frias do apartamento

invento tua presença

teu cheiro, teu sorriso

na cama vazia te abraço

em meus lábios fantasio

calado e perdido nas memórias

que nunca existiram

faço sonhar acordado

a insônia de tua ausência

quem me dera ser um deus

ou ter superpoderes

para sorrateiro te trazer

com seu consentimento e desejo

é no silêncio da noite escura

que por um momento

acredito

Ciência do impossível

Eu tenho uma paixão

mas ela é quase impossível

então escrevo poesia

a arte é a ciência do impossível

no poema ela me beija

faço rimas

fazemos amor

o impossível fica verossímil

sinto sua pele

sua dor

o poeta é antes de tudo

criador

um deus sem reservas

sem castigo

só amor

Parábola

ela desce as ruas de paralelepípedo

seu sotaque de rouxinol azul

o sorriso largo livre no rosto

abraça os amigos em profissão de fé

senta no bar pela cerveja e a certeza

de que cada dia é apenas uma vitória

no corpo toda a poesia e malemolência

da menina mulher do mar e do céu

letrada sempre diz o que sente

chora muito porque a verdade é dolorosa

vive com a paixão dos que não se escondem

dos que temem, mas cantam mais uma melodia

ela é longilínea, esguia, quase gigante

esfinge sedutora sob os cachos dourados

marcada pelos eventos que a noite traz

toma o sereno da madrugada entre risos

e sempre amanhece doce

ela é a mulher que compõe minha parábola

uma história de amor sem inicio nem fim